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Palimpsesto

"Para sobreviver é preciso contar histórias“

Outrora é um lugar situado no centro do universo.

As suas fronteiras cardeais são guardadas pelos quatro arcanjos, a norte Rafael, a sul Gabriel, a ocidente Miguel e a oriente Uriel. Outrora é divinamente protegida e tudo corre bem.

É na floresta de Outrora que se encontra o coração do micélio, e este, sábio e intemporal, como Deus, fala a quem o escute, num sussurro que não tem tempo nem significado, apenas evidência e clareza. Como em todos os lugares pequenos há um louco, ou dois.

Em Outrora Kłoska é a voz da floresta, onde vive sozinha num casebre, selvagem e despudorada, que soa a uma filha de Yaga, com as suas questões e sentenças que ninguém quer ouvir, mas que em última instância...

Simplesmente um dia chegou, ninguém sabe de onde, ainda menina, com os seus cabelos amarelos como espigas, nos campos recentemente ceifados, como uma Południca ou uma Táltos, à maneira dos húngaros. Temida e desejada, expõe as feridas deste povo, do qual não se sabe mais que uma mão cheia de vidas que se cruzam, quase por mero acaso, nos trajetos da vida diária. Kłoska não tem medo de nada e conhece as fronteiras de Outrora, não aquelas que separam Outrora de outros lugares, mas a fronteira com o desconhecido, aquela que nunca ninguém transpôs e cujos riscos de trespasse ninguém conhece. Kłoska, é o ponto de encontro com o inconsciente.

Misia nasceu desfragmentada, incompleta, e é a única que se inteira até ao final desta narrativa em quadros, quanto mais não seja porque tem um princípio e um fim. O seu tesouro é um moinho de café, que veio antes dela e permanecerá após a sua morte, funcional, e um perfeito mistério mecânico, que todos cobiçam em segredo.

O pároco é o contentor de toda a raiva, de toda a zanga, o único que conhece e sabe toda a imperfeição dos homens, essas abomináveis criaturas desse abominável Deus criador! Bilioso, com sobrepeso no corpo e na alma, sabe à priori que a natureza tem uma agenda, perturbar a paz dos seus dias. Mas Deus falava com ele, e no fundo, dava-lhe bons conselhos.

O Morgado Popielski colecionava perguntas e descobriu a arte e o sexo, ou a arte do sexo, aos 38 anos. A sua vida nunca mais seria a mesma. Não pelo sexo, não pela arte, mas antes pelo Ignis Fatuus – Jogo Instrutivo para um só Jogador, que ocupou os seus dias até ao desfecho, do jogo e da vida. Coincidentemente esta descoberta chegou-lhe pelas mãos de um judeu, mesmo antes da guerra. Foi a sua sorte! O jogo, que não se pode dizer que fosse de tabuleiro, porque era uma manta, tinha personagens e um dado de oito lados, e contava a história de Deus e da Criação.

Deus não gosta nada da imperfeição! Enfada-se facilmente e tem pouca tolerância aos erros, ou seja, aos homens e à sua humanidade. Nunca nada está suficientemente bem. Uma espécie de perfecionista obsessivo, de humor instável e depressivo. E por vezes tem muitas dúvidas existenciais, não sabe se foi ele que criou os homens, ou os homens que o criaram a ele. É nesses momentos que se torna mais interessante e se pode ter uma conversa profícua, ainda que ele tenda a ser o seu único interlocutor.

Eli é judeu. Eli é amante de Genowefa. Eli morre, como todos os judeus de Outrora, na guerra. Apesar de Outrora não ser deste mundo e não estar em lugar nenhum, alemães e russos tomaram-na como passagem. Com eles chegou a morte, de ambas as partes, da parte de fora, e da parte de dentro. A guerra chega sempre a todo o lado, mesmo aos lugares nenhuns. Os judeus de Outrora não morreram na câmara de gás, mas ali mesmo, e o seu sangue fertilizou a terra e o micélio tinha agora outras histórias e mistérios para contar. As histórias dos homens nem sempre são claras para o reino entre-mundos do micélio, mas ele tem a sua sabedoria, a sua linguagem e a sua música.

Uma narrativa em quadros, um desfile de personagens peculiares, fixos, fora do espaço e do tempo, que habitam a mítica Outrora. Cada quadro é um tempo, cada tempo um espaço psicológico. Como um jogo, um conjunto de personas que nos parecem alheias, frias, distantes nos costumes e nas referências, mas que são reconhecíveis nos instintos e na forma. O progresso chega após a guerra e as marcas da ocupação nazi estão gravadas para sempre na morte e no esquecimento. A magia ficou debaixo da terra.

Por vezes mágica, alegórica, outras tantas profundamente humana, a escrita de Olga Tokarczuk tem um misto de beleza fria, e uma subtil ironia, que nos convida a perscrutar o interior, depois de macerada cada personagem. Ligadas pelo micélio, as suas formas são tão belas quanto as mais variadas espécies que brotam dessa filigrana interior, tecida por um reino que não é deste mundo.

Olga Tokarczuk tem formação em psicologia, e apresenta-nos na sua escrita quadros psicológicos como esporos que inseminam na psique portas de acesso ao inconsciente arquetípico.

O saber que apenas se acumula do exterior não muda nada no ser humano ou apenas muda aparentemente; visto de fora, troca-se uma roupa por outra. Em contrapartida, aquele que aprende por assimilação passa por constantes mudanças, pois incorpora na sua essência aquilo que aprende. 

 

 

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