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Palimpsesto

"Para sobreviver é preciso contar histórias“

Tirésias, Freud e Édipo

Como édipo, vivemos na ignorância de desejos tão ofensivos à moral, desejos esses que a natureza nos impôs e cuja revelação nos levará, sem dúvida, a preferir desviar o olhar das cenas da nossa infância.

Sigmundo Freud, A Interpretação dos Sonhos

Na região da Fócida há um lugar onde três estradas se encontram. As estradas de Daulis e de Delfos ligam-se à estrada principal, que leva a Tebas. Foi neste lugar que a profecia do oráculo de Delfos pôs em marcha o plano traçado para Édipo, o trágico rei. Mas antes mesmo desta história, foi neste lugar que Tirésias, ainda jovem, se despediu do tio, e da sua vida de criança, para se dirigir a Delfos como aprendiz.

Salley Vickers é uma romancista britânica, foi professora universitária e psicanalista, atividades que abandonou para se dedicar a tempo inteiro à escrita.

Neste livro, Vickers conta uma história peculiar e comovente sobre o último ano de vida de Sigmund Freud, em Londres, na região de Hampstead, onde Freud viria a refugiar-se do nazismo, após fugir de uma Viena que queimara uma boa parte da sua obra. Nesta fase da vida Freud já se encontrava muito doente. Com 82 anos, sofria de um cancro no palato há mais de quinze anos, e havia sido submetido a mais de trinta cirurgias. Fragilizado pela doença, o homem que desenvolveu a técnica da Talking Cure estava agora impedido de falar, e também um pouco surdo. É num ambiente que sugere o sonho, ou um estado da alteração de consciência provocada pela morfina, que Freud recebe uma estranha visita, que ao longo de vários encontros partilha com ele uma história que lhe é cara e basilar na teoria psicanalítica, a história de Édipo Rei.

O visitante é Tirésias, o famoso profeta cego da antiguidade clássica. Foi ele quem profetizou a tragédia de Édipo e melhor do que ninguém ele poderia contar como tudo se passou. A sua história começa por revelar como o seu dom se manifesta, na visão da morte de sua mãe às mãos do seu pai e de como fora lançada ao rio, e do possível perigo a que estava sujeito com a madrasta. É nesta sequência de eventos que Tirésias é levado para Delfos, aos 12 anos, para se tornar um sacerdote. A primeira vez que Apolo se manifesta através dele é precisamente para a casa de Tebas.

“Preciso descobrir até que ponto mereço censura. Vai compreender isso, Dr. Freud. A culpa. Alguém lhe escapa? A culpa é a razão por que fabricamos histórias?”

Umbigo do mundo, Delfos ergue-se no portentoso Parnaso. É a casa de Apolo, mas também do seu irmão Dióniso, que ali governa quatro meses no ano, e acolhe ainda um templo dedicado a Atena Pronaia, a deusa querida de Freud. Tirésias era sacerdote de ambos, Apolo e Dióniso, luz e sombra, como se Apolo só por si não fosse suficiente contentor de paradoxos, como revelam todos os seus epítetos: Febo o luminoso, Lóxias o obscuro, Afetoros que traz a peste, Aquésios o curador, Liceu o lobo voraz, Nómios protetor dos rebanhos. Todas as facetas de Apolo intervieram nesta tragédia.

O relato que Tirésias oferece a Freud é íntimo e profundamente humano, ao mesmo tempo que é apaziguador. Freud, como Tirésias, tinha esse dom da visão, via para além dos véus da personalidade, até que os véus lhe cobriram os próprios olhos, quando negou a possibilidade devastadora da guerra que se lavantava na Europa, e esperou até ao último momento para deixar a sua cidade. A culpa certamente o atormentou, pela morte das irmãs. Se…? a pergunta sem resposta que corrói e dilacera o espírito, num corpo ele próprio já dilacerado. A dor, que Freud suporta estoicamente, perto do fim a morfina pouco efeito fazia, é aliviada por este encontro, Tirésias é o seu lado benévolo, aceitante, que acolhe humildemente a decisão dos deuses.

Morreu como era seu desejo,

numa terra estrangeira,

com o eterno local de descanso

numa tranquila sombra,

e a sua passagem não foi sem pranto.



Sófocles, Antígona, Édipo em Colono