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Palimpsesto

"Para sobreviver é preciso contar histórias“

2020 já vai no seu terceiro dia e o tempo parece que escorre por entre os dedos! Janeiro não é decididamente o melhor mês para perspetivar as leituras do novo ano, mas ainda assim não resisti a espreitar as novidades que aí vêm, no ípsilon. Além de Ferrante chamou-me a atenção a sequela de Atwood, Os Testamentos. Leitura obrigatória! Fico a aguardar. E, no entretanto, lembrei-me do texto "ainda sobre as distopias..." que publiquei numa rede "social" sobre o livro A História de uma Serva. 

 

ainda sobre as distopias...

Não conhecia Margareth Atwood, como aliás não conhecia até então literatura canadiana. Um mundo novo a explorar. É claro que este nome me chegou por causa da série, e por todo o ruído à volta dela. Como não tenho televisão, posso sempre escolher o que quero ver sem correr riscos. E foi assim que entrei pelo ecrã, do computador, em The Handmaid’s Tale. E se existe um livro, há que o ler! E neste caso vale mesmo muito a pena.

O primeiro romance distópico que li, A Brave new world de Aldous Huxley, era ainda demasiado jovem, a sair da adolescência, para conseguir digerir aquela visão. Senti-me como uma jiboia que engoliu um mamute lanoso a seco e aquilo teve uma digestão deveras lenta e pesada! Hoje, essas obras, vejo-as com outros olhos, porque, como dizia Saramago, cada um vê o mundo com os olhos que tem. E os olhos, vão evoluindo connosco.

Depois do choque inicial as distopias tornaram-se um tema fascinante. Vejo-as como a capacidade que alguns têm de ver camadas de realidade que não são explícitas, ou imediatas, simplesmente porque não temos tempo e tudo é vivido e absorvido na diagonal. Parecem-nos duras, frias, cruéis, mas são apenas camadas de realidade. Não as vejo como futurologia, nem vejo estes autores como visionários. Na verdade, nada de novo, pois falam de realidades que a humanidade vive ou já viveu, ou já nos esquecemos do nazismo ou do maoismo? E nos nossos dias? as servas não andam de vermelho, mas andam de preto, e na essência, creio que estamos a falar de algo muito similar. As distopias literárias não são mais que uma exposição, um trazer à superfície sub-camadas de realidade muito bem peneiradas. E é essa visão exponencial que nos magoa, que nos fere, porque sabemos que lá está, sempre esteve, ainda que assuma novas denominações, novas roupagens, e aparentemente novos desígnios.

“Há vários tipos de liberdade, dizia a Tia Lydia. Liberdade para e liberdade de. Nos dias da anarquia, era liberdade para. Agora, dão-nos liberdade de.”

No caso particular de The Handmaid’s Tale a distopia em si é secundária. Enquanto que na série, e porque os olhos também comem, a história alimenta-se da violência de um regime autocrático/teocrático, e as cenas de violência, constantes no guião mas ausentes no livro, são o alimento da necessidade do imediato, no livro somos guiados pelos olhos de alguém que está longe da omnisciência.

É uma narrativa na primeira pessoa, o que nos permite acompanhar a evolução psicológica da personagem através dos seus pensamentos, julgamentos, medos, lágrimas, dores, carências, frustrações, necessidades, desejos, projeções, emoções, sentimentos, memórias... escolhas. De forma bela e imersiva, crescemos com ela, Offred, cujo nome real nunca nos é revelado, nem tampouco como termina a sua história. Apenas nos é dado a conhecer a sua profunda evolução psíquica, as suas escolhas internas, o que ela faz com o que a vida lhe faz, e guardamo-la, como mais um daqueles amigos que fazemos nos livros e que nos dão valiosos recursos para a vida.

Gosto de finais abertos, porque como a vida, não sabemos como vai acabar, além de que, por vezes, sabem como comida processada. Ainda assim, um bónus de esperança no final da história de Offred, o apêndice Anotações Históricas. Muito bem conseguido, mostra-nos a constante transformação do mundo e que nada é permanente nem eterno. Com sentido de humor uma achega sobre como desvendamos o passado com os filtros do presente e as suas limitações. E a Esperança, em si mesma, uma das três virtudes teologais - a Fé esteve sempre bordada na almofada de Offred -, não deixa de ser reveladora de um humor refinado e inteligente para fechar uma história que se quer como um convite à reflexão.

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