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Palimpsesto

"Para sobreviver é preciso contar histórias“

Os despojos do dia

O dia perfeito para escrever sobre um dos meus autores preferidos. Hoje é o aniversário de Kazuo Ishiguro.

Os despojos do dia, O gigante enterrado, Nunca me deixes, As pálidas colinas de Nagasáqui, Um artista do mundo flutuante, Quando éramos órfãos, são os títulos que li até ao momento. Noturnos e Os inconsolados esperam o momento oportuno, um momento em que possa abrir o livro com o tempo de qualidade de só o voltar a fechar quando terminar. É raro ter essa disponibilidade, mas com alguns livros assumo esse compromisso de não me envolver noutras leituras e de me esquecer do tempo.

Ishiguro é um mestre no uso das palavras com significado para além do hábito. Os temas comuns a vários dos seus livros são muitas vezes o pano de fundo do mundo interior da personagem, a guerra, sempre presente mesmo quando não é evidente, a solidão, mesmo que acompanhada, o esquecimento e a delusão da memória, os véus da ilusão e a vida não vivida. Muitas vezes realidades cruéis maquilhadas com o sorriso social de quem cumpre bem o seu papel, como acontece em Os despojos do dia. Tudo o que não está escrito é tanto que é preciso lê-lo várias vezes.

Se escolhesse uma só palavra para caracterizar este livro seria Intimidade, como recurso partilhado com o leitor. Intimidade é uma fantasia, uma abstração, um projeto que almejamos ao mesmo tempo que dele fugimos como de um caminho incerto e sem retorno, porque o é, e capaz de virar a vida do avesso. Ou do lado certo.

É um livro que começa devagar, que nos vai envolvendo, puxando para dentro e quando nos apercebemos estamos sentados com uma chávena de chá numa bergere vitoriana a escutar a história que nos vai sendo contada em tom de confidência pelo mordomo inglês, Mr. Stevens. Uma angústia, camuflada em várias camadas de densidade, vai sendo exposta como quem despe pele sobre pele, por debaixo de uma máscara há muito colada ao rosto.

A subtileza em forma de diálogo com o leitor permite-nos ser um personagem ativo, é connosco que ele fala, como se a dor passasse e não ousasse ficar, por ausência de atrito. O desencanto, as oportunidades perdidas, inalcançáveis, como se o destino estivesse inevitavelmente traçado e não fosse possível ser de outra forma. O Dazein é uma via que poucos ousam experimentar. Há os que nascem para ser protótipos do destino, sem questionar.

Onde íamos? Ah sim, uma chávena de chá e o desfiar dessa vida por viver, num destino cumprido por interposta pessoa. Ser exemplar numa vida que não se escolheu, mas que se herdou. E para sobreviver é preciso estar atento, mas só o suficiente para não duvidar. Só o suficiente para desempenhar, com rigor, o que é pedido, com o brio próprio de quem não sabe que é possível... o Amor!

A falta de jeito, o filtro que mascara a realidade, a incapacidade de assumir sentimentos enclausurados. Tudo estava lá, quase gritado, mas impossível de ouvir, de aceder. Orgulho, talvez, mas nunca soberba. Orgulho pelo brio, por ser um exímio executante do papel herdado.

Mas Kairos é implacável e num instante apenas apanha-nos desprevenidos e mostra-nos o que poderia ter sido. As dimensões paralelas de cada momento e as escolhas que não foram feitas por... lealdade! que mais do que um atributo dos fracos, é um atributo dos sem crítica, dos que não têm voto na matéria, dos que nada sabem sobre guerras e traições, ou que procuram não perceber porque não sabem outra vida. A ignorância pretendida em silêncio e ausência é a única forma de sobreviver. Oh, doce mentira! Incapaz de conter tamanha desolação, à chuva, à espera... quem nunca esperou mais do que lhe foi permitido enquanto criado, mudo! O tempo é uma armadilha! O tempo passado em secretas noites e momentos de ócio recolhido em romances de cordel na tentativa de aprender gestos e palavras interditas ao estatuto da profissão.

Não escolher também é uma escolha. O peso da responsabilidade em casa alheia é uma perfeita desculpa, tão boa quanto a de um funcionário estatal que assina papéis. Mr. Stevens, não tem saída, nem recursos emocionais. Ninguém o ensinou a amar. Quando finalmente caem os véus já é demasiado tarde. E nunca ninguém lhe agradeceu.

Uma obra que fica profundamente marcada na memória.