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Palimpsesto

"Para sobreviver é preciso contar histórias“

20 Out, 2020

O Cisne Negro

Não tinha em mente reler este livro imenso, quando tenho tantos livros por ler. Mas foi irresistível o chamado do laranja intenso da sua capa, qual embalagem de vitamina C, tão conveniente nesta altura do ano. Um chamado ligeiramente contaminado pela possibilidade de passar uns bons momentos hilariantes, ao mesmo tempo que relembro as ideias propostas por este cérebro único e surpreendente, que é Nassim Nicholas Taleb. Porque parece que afinal há livros certos para certos momentos. Este é um desses momentos, um tempo cheio de nuances, sociais, políticas, económicas, que mais parecem madeixas feitas em casa em modo youtube DIY, não desfazendo da criatividade exuberante dos especialistas nas restantes redes sociais e da mediatização da ciência, o novo ópio do povo.

Antes da descoberta da Austrália, as pessoas do Velho Mundo estavam convencidas de que todos os cisnes eram brancos.

Assim começa O Cisne Negro, de Nassim Nicholas Taleb, que não é ornitólogo.

Mas afinal o que é um Cisne Negro?

Um Cisne Negro, em maiúsculas, refere-se a um evento raro, altamente improvável e altamente impactante, para o qual, posteriormente, elaboramos análises e explicações, de forma a reduzir o desconforto provocado pela aleatoriedade. Estamos preparados para eventos raros e impactantes quando a tendência é focarmo-nos no que já conhecemos? Não!

O Cisne Negro é um livro arrojado e desconcertante. Por um lado o convite a olhar a vida como factual, por outro lado o apelo à consciência da limitação do nosso conhecimento. Nunca esquecer que aquilo que não sabemos é infinitamente maior do que aquilo que sabemos, ou como lhe chama Taleb, a anti-biblioteca de Umberto Eco.

É desafiante, irónico, e por vezes chega a ser arrogante. Qualidade, aliás, que muitos referem ser um dos atributos mais fortes de Nassim Taleb. Contudo é uma arrogância informada, talvez lhe chame um entusiasmo excessivamente expressivo.

O convite à factualidade é desconcertante, ou não fosse a máxima de Umberto Eco, Para sobreviver é preciso contar histórias, uma das que mais sentido faz no dia-a-dia, para mantermos uma coerência ou fio condutor, na estrutura psíquica e identitária. Aliás a impossibilidade de contar histórias, ou de narrar o fio da existência, desproveria a vida de qualquer sentido, e possivelmente a coerência a que chamamos sanidade mental.

Mas claro está que este apelo não se dirige ao indivíduo comum, mas especificamente aos “especialistas”, essa classe que Taleb abomina, pelo condicionamento provocado pelo afunilamento da visão especializada. São raros os especialistas eruditos, segundo ele, ou verdadeiramente especializados. Para Taleb a erudição é um sinal de verdadeira curiosidade pelo conhecimento, o que possibilita uma maior amplitude de visão, e consequentemente uma certa e bem-vinda humildade.

Um livro de conteúdo denso e complexo, escrito numa linguagem acessível, com capítulos curtos e subdivididos, pontuado de bom humor. Um convite à desconstrução de fórmulas que temos como certas, que aprendemos e debitamos como se as compreendêssemos, e que quando observadas sob outra lente apresentam realidades não equacionadas.

Este na verdade é o desafio que Taleb apresenta. Ninguém espera um Cisne Negro, e vivemos o mais possível focados em compreender apenas aquilo que já conhecemos. Exemplo de um dos Cisne Negro é o 11 de Setembro. Como prever tal acontecimento? Não se prevê. E aqui reside um dos pontos fundamentais da sua tese, a falácia da narrativa pressupõe a necessidade de prever. As previsões são sempre enganosas e, em última instância, uma mentira que todos sabem mas que não abdicam de usar. Uma necessidade de controlo aparente, uma função que se exerce, a soberba de um conhecimento adquirido, parco e estreito, mas que permite manter a aparente coesão da realidade.

Taleb, PhD em estatística e análise de risco, nasceu no Líbano e sonhava um dia vir a ser filósofo, não fosse a vida, por entre a guerra e o isolamento de dezasseis anos, ter tomado o caminho do desconhecido abstrato da matemática e da análise estatística.

O Cisne Negro é, em síntese, um apelo a abrir caminho para além da curva de Gauss, continuando a cauda invisível dos outliers, onde se observam, na continuidade, uma expansão fractal na qual a realidade adquire um corpo mais verdadeiro, mas essencialmente menos abrupto.

Medir, simplificar, categorizar, reduz a realidade a uma mão cheia de possibilidades conhecidas, manipuláveis, aparentemente controláveis. Mas afinal o que controlamos nós?

A curva de Gauss, segundo a linguagem talebiana, define-se por dois terrenos, o Mediocristão – média, mediana, moda, “medíocre”, e o Extremistão, onde tendem a aparecer os Cisnes Negros, porque tudo o que é pouco provável, não estará alojado em torno da média. São os Cisnes Negros que mudam os paradigmas, e que nos fazem despertar para outros aspetos da realidade que não estávamos preparados para ver, mas que estiveram sempre lá, como o elefante no meio da sala. A sua proposta? A epistemocracia, uma sociedade governada com base na consciência da ignorância  ao invés do conhecimento.

Quando se desenvolvem opiniões com base em evidências débeis, tem-se dificuldade em interpretar informação posterior que contradiga estas opiniões, mesmo que esta nova informação seja obviamente mais exata. Dois mecanismos estão aqui em jogo: o enviesamento da confirmação, e a perseverança da convicção, a tendência para não inverter opiniões já formadas. (...) quanto mais pormenorizado for o conhecimento da realidade empírica, mais vemos ruído (ou seja, o anedótico) e confundimo-lo com informação. (...) somos movidos pelo sensacional.

O Cisne Negro é um livro de 2007, e entretanto Taleb já publicou mais livros, dos quais ainda só li A Cama de Procusto, um pequeno livro de aforismos. Antifrágil, Arriscar a pele, Iludidos pelo acaso, uma obra ainda a descobrir.

Nassim Nicholas Taleb

Ah, e quanto à pandemia, não, não é um Cisne Negro.