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Palimpsesto

"Para sobreviver é preciso contar histórias“

É por isso que o mundo em que vive no presente muda pouco a pouco, adequando-se a esta nova realidade. É assim o conhecimento: o mundo altera-se de acordo com a nossa perceção. Existe, sem dúvida, aqui e agora, mas do ponto de vista fenomenológico, o mundo não passa de uma entre um número infinito de possibilidades.

Somos todos loucos por aqui. Seria uma  advertência adequada a figurar nos marcadores que acompanham os livros de Murakami. Mas ninguém nos avisa. Termos lido Alice na infância não é preparação suficiente. Ainda que aceitável para a possibilidade dos gatos falarem.

Pode dizer-se que, Murakami é uma experiência psicadélica, estranhamente envolvente, mas não necessariamente extática. Que deixa uma curiosa sensação de privação quando termina. Já para não falar na ausência de realidade aparente.

Uma alegoria. Até aqui tudo bem... mais ou menos tudo bem... duzentas páginas depois lá começa a fazer-se alguma luz, quando já começávamos a questionar a sanidade... do autor, claro! Bom, talvez não a sanidade, mas a clareza. De onde lhe vem a clareza? O engenho? Os conteúdos?! Parece que as histórias lhe saem em borbotão pelos dedos, numa espécie de incontinência psíquica.

O Fim do Mundo é um lugar frio e branco, do qual não é possível voltar uma vez que o processo de separação esteja concluído. A esse processo, de separação da sombra, dá-se o nome de shuffling, e acontece no impiedoso país das maravilhas, com a concordância dos que a ele se submetem. O processo é livre, e promete limpar as memórias, o passado. Eliminá-lo.

No impiedoso país das maravilhas nada tem verdadeira importância, tudo corre como deve ser, cada coisa está no seu perfeito lugar, os erros, a ignorância, o controlo, a distração, o ruído, o álcool, o sexo casual, a vida comum, tal como ela é. Uma caverna de Platão onde todos os autómatos creem na sua autonomia, liberdade e livre-arbítrio.

O tema da sombra em Murakami é um dos seus mais interessantes leit motiv. Nakata perdeu a sua sombra, em Kafka à beira-mar. O personagem sem nome do impiedoso país das maravilhas irá prescindir da sua sombra, por opção. O shuffling apagará o seu passado, as suas memórias, os seus erros, as suas escolhas. Não há escolhas certas, nem caminhos seguros, e o fim último não é lugar nenhum. Sem sombra = sem identidade.

 A  sombra de que nos fala Murakami não é, segundo ele, a mesma sombra de que falava Jung. Ou será apenas um artifício como quando deus impôs a Eva a proibição do fruto?

A ausência de sombra é uma permissão à inocência de fazer o que tem de ser feito. Há uma sabedoria intrínseca em Nakata, que perdeu a sua sombra ainda criança, e essa sabedoria é a inocência. Em Nakata não ter sombra é também a ausência de um mecanismo natural e adaptativo, o medo. Na ausência de medo podemos enfrentar qualquer situação. Mas Nakata em nada se parece com Teseu. Coragem sem medo é apenas uma abstração pueril. Nakata sabe porque sabe, e faz porque é movido por uma força maior, exterior, desconhecida, inquestionável na sua moral. A inevitabilidade é a consequência dos sem sombra. Heróis de um dragão invisível, inconsciente.

Já no Fim do Mundo a sombra é retirada a quem decide ficar, é a única forma de permanecer, no doce silêncio da ausência de tempo. Ele, tudo faz para a recuperar, para que o corte não se dê, ele luta, e pede à sua sombra que lute com ele, que não desista, pois sabe que, sem sombra, deixará de saber quem é.

Diz-nos Marie Louise von Franz que a sombra é uma recordação eficaz da nossa incompletude, que nos mantém os pés no chão. A sombra é um todo desconhecido, um potencial, a outra face, o sentido crítico de quem reflete, de quem se angustia. Sem sombra = sem insight. E Murakami sabe e desmonta, nesta dinâmica, que se passa na cabeça de um homem, permanecer ou não permanecer no marasmo de seguir adiante sem observar, de observar sem ver, de ouvir sem escutar. A ignorância não é somente um atributo de quem não sabe, mas principalmente de quem sabe para fora e à superfície, incapaz de mergulhar nas águas escuras e agitadas do interior profundo.

... ninguém sabe explicar o que se entende por vontade. Ninguém ainda decifrou o segredo da fábrica de elefantes que existe na nossa mente.

Em última instância, dizia Schopenhauer, ninguém vive a vida que sonhou viver.