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Palimpsesto

"Para sobreviver é preciso contar histórias“

“Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia.”

João Guimarães Rosa – A Terceira Margem do Rio

Aquilo que não havia, acontecia!

Este conto de Guimarães Rosa chegou-me para permanecer. Um conto pequeno, aparentemente de somenos importância quando pensamos na magnitude da obra do autor. Há histórias assim, de tão curtas e tão simples, que o inesperado de se adentrarem de forma subtil mas com tamanha profundidade cirúrgica, nos deixa numa perplexidade silenciosa, contemplativa...

Há um lugar, que creio todos trazemos dentro, uma espécie de armário, ou baú, a forma talvez seja irrelevante, onde deixamos pequenas pérolas para que estejam disponíveis em caso de urgente necessidade de contemplação da beleza das coisas simples. E simples é  quase uma piada...

A Terceira Margem é uma metáfora tão bem urdida que não lhe conseguimos encontrar o objecto da comparação. Imagino, com um quase sorriso trocista, Heraclito a resolver esta armadilha!

Porque aquilo que não havia, acontecia! Porque aquilo que não há, carece de todas as possibilidades de acontecer, de todas as interrogações, de todas as respostas, de todas as razões, de todos... os silêncios! O silêncio de permanecer. Aquietar, o corpo, a mente, a razão, o desejo! Nada esperar! Permanecer sem urgência em que a morte se atrase, criando raízes no fluxo das águas como quem cresce de dentro para fora.

O silêncio é por vezes a maior de todas as dores, não saber, não compreender. Este pai que se vai, para o meio do rio, numa canoa, permanecendo, na terceira margem, quieto, silencioso, nas águas cujo movimento nunca cessa. As águas vão, a canoa permanece. A vida corre, o tempo passa, e a canoa permanece. Sempre, no meio do rio. Esse permanecer inquieta o filho, cuja culpa em crescendo se apossa da possibilidade de trocar a sua vida, não vivida, pela do pai. Essa necessidade que o assoma no desamparo, de ser visto, assistido, feito existência, é num certo momento aceite, o pai cede e volta, para que o filho tome o seu lugar na canoa. O que não havia, acontecia! ... pai, eu tomo o seu lugar!

E nesse instante, tão-somente nesse instante, quando o inevitável se evidencia pleno de fatalidade, é que a vida enfim começa, na escolha de não o fazer!

Casa da palavra, onde o silêncio mora......... a voz das águas! 

Com o acompanhamento de Milton Nascimento e Caetano Veloso A Terceira Margem do Rio