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Palimpsesto

"Para sobreviver é preciso contar histórias“

31 Dez, 2019

Por sorte, o leite

Neil Gaiman é um escritor com uma criatividade surpreendente e uma escrita muito versátil, para todas as idades.  Gosto particularmente da sua abordagem à mitologia. Este ano resolvi oferecer ao meu filho pelo Natal dois livros de Neil Gaiman, Odd e os gigantes de gelo, um texto sobre um menino Viking, que ainda não lemos, e Por sorte, o leite, o livro que, este ano que agora termina, nos arrancou as maiores gargalhadas. Já não ria assim há muito tempo...

Por sorte, o leite é a história de um pai que ficando sozinho com os seus dois filhos, a mãe tinha ido a uma conferência onde ia fazer uma apresentação sobre lagartos, vê-se na necessidade de ir comprar leite para os cereais de pequeno-almoço e para o seu chá. Sair para ir à mercearia comprar leite pode ser o início de uma inusitada aventura! Raptado por um disco metálico onde pessoas-bolhas verdes, viscosas e muito resmungonas, que pretendiam redecorar o mundo, lhe exigem o planeta, vê-se obrigado a fugir por uma porta de emergência, que o catapulta para o continuum espaço-tempo... a partir daqui a história vai girando muito bem no tempo, passando por barcos de piratas, vulcões e profecias, e vumpiros esvomeados, a bordo de uma bola-flutuante-transportadora-de-pessoas e, por sorte, o leite... o melhor é lerem. As ilustrações são fantásticas!

30 Dez, 2019

O Gigante Enterrado

“Este livro não sai da cabeça, recusa-se a ir embora, força o leitor a voltar a ele... excecional.” Neil Gaiman

Ishiguro é um escritor de profundidade que intencionalmente nos puxa para as profundezas do sentir, como se percorrêssemos pela primeira vez alamedas de emoções, com a mesma curiosidade de um turista em terra alheia, mas onde (não) encontramos referências suficientes e, a dada altura, já não sabemos como voltar e mergulhamos ainda mais, até que por fim se instala como uma inevitabilidade, uma sensação, forte, que teima em ficar, por muito tempo, até que nos apropriemos dela, como uma memória.

Este livro é uma surpreendente alegoria em campo aberto. Vasto como a dimensão arquetípica, em vez da intimidade a que nos habituou de um personagem só. Aceder ao conteúdo com o propósito de lhe encontrar um propósito é uma tarefa quase ingrata. O Amor dir-se-ia uma possibilidade expectável. Mas, tudo nele é símbolo, tudo nele é amplo e vasto como o sonho da humanidade e as suas nuances temporais. Os personagens centrais, o casal Axl e Beatrice, trazem em si o significado de carruagem e caminhante. E efetivamente eles caminham, à procura do filho que ambos acreditam vive há muito noutra aldeia. E a decisão de tal peregrinação deve-se a lhes ter sido retirada a luz. Não só a luz lhes foi retirada, mas a memória. Vivem-se tempos de esquecimento, o passado dilui-se na névoa e ninguém questiona, ninguém se apercebe do esquecimento. É uma conveniência bem vinda para apagar a dor da consciência que começa a emergir no conflito entre duas crenças. Permanecer ou mudar?... O caminho é longo e duro. Axl e Beatrice são já velhos e estão cansados.

Todos os personagens com que se cruzam são dúbios e duais, em todos fervilha a força oculta do bem e do mal, da luz e da sombra, e da escolha a cada momento. Sir Gawain, na sua armadura colada ao corpo, oscila entre o herói da Távola Redonda e o cavaleiro errante e quixotesco. É ele quem desfila o leque de escolhas, permanecer ou mudar, honra ou reconhecimento, força ou vontade. Revela a sabedoria, o compromisso e a redenção, mesmo quando se depara com as três velhas parcas, que vituperam do seu ordálio. Já os monges estão divididos num antagonismo que agoniza em jaula de carne exposta aos corvos. Jonus, sugestiva alusão ao bifronte, é o mais sábio dos monges, devorado pela “memória” e “pensamento”. O barqueiro tem a sua função, e não lhe cabe julgar, ainda que o óbulo que deve exigir seja a Verdade. O herói, Master Wistan, e a criança Edwin, são os que não se deixam tocar e o véu não lhes tolhe os sentidos do tempo. Não têm laços, mas uma demanda.

E Querig? Querig dorme, dorme e sonha o sonho do mundo, e o seu bafo é o véu que cobre o sonho... velho como o tempo, arcaico e fantástico, um sonho novo, um mundo novo, uma nova ordem... Querig ou Querigma? É do interior da terra, na força ctónica desse símbolo demoníaco, da força telúrica do seu despertar, do seu fogo, que tudo devora, que a mensagem é passada, o espírito em forma de névoa. E quando não for mais preciso, esse véu que se dissipa, revela a verdade no coração dos homens.

E quando a verdade já não for mais oculta, ainda me amarás?

Esta é uma história sobre a Grande Viagem.

 

 

... mas antes um blog de experiências literárias, mas também cinematográficas, musicais, quotidianas, enfim, pensamentos e rabiscos. Como se o espaço virtual não estivesse já cheio deles!

Palimpsesto, do grego παλίμψηστος. De acordo com a infopedia, refere-se aos pergaminhos ou papiros que contêm vestígios de um texto manuscrito anterior, que foram raspados, apagados, para permitir a reutilização do material. Era uma prática comum na Idade Média entre os monges copistas. Os pergaminhos, tinham um custo elevado, eram por vezes lavados para eliminar o texto, ou raspados com pedra pomes.

Dizia José Saramago que toda a literatura é um palimpsesto. Há todo um sentido nesta afirmação que me projeta de imediato para o sistema relativamente fechado que é a psique, pessoal e coletiva. O inconsciente coletivo em constante atualização. Uma espécie de eterno retorno em continuum. Transbordante...

Mais do que a literatura, todo o leitor é um palimpsesto! Livros há que nos lavam, nos raspam, aclaram, amaciam, para nos reescrevermos. Os mais atentos conseguem mesmo perceber os processos em segundo plano, ... sistema em atualização, por favor... desligue!

Ler um livro é mais do que uma soma de informação, é uma experiência, que transforma e reescreve os conteúdos do inconsciente pessoal. Porque dentro dos livros existem pessoas e as suas experiências. Há lá melhor forma de conhecer o mundo? De fazer amigos? De viver várias peles e observar a vida por diferentes olhos? E a cada uma destas experiências, uma atualização, voilá!

Ao mesmo tempo diria que ler é perigoso! Sabia-o Frei Jorge muito bem e cuidou de tratar disso sabiamente. Os livros mais perigosos são obviamente os não lidos. Esses lembram-nos que tudo o que não sabemos é infinitamente maior... convém ter sempre alguns, bastantes, nas estantes, misturados com os lidos, disfarçados, mas presentes. Uma antibiblioteca é sempre uma garantia!