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Palimpsesto

"Para sobreviver é preciso contar histórias“

02 Jan, 2021

O primeiro dia...

2020 foi um ano de muitas leituras adiadas. A promessa de tempo disponível foi gorada por tantas alterações, imprevistos e ajustes, que ainda que quase sempre estivesse a ler mais do que um livro, soube sempre a tempo esquivo. Também não escrevi tanto como gostaria. Este blog fez o seu primeiro ano dia 29 de Dezembro, já mudou de aspeto pelo menos três vezes, e talvez ainda mude outras tantas. Já fico satisfeita se não voltar a apagar publicações inadvertidamente... Ainda (...)
O ano de 2020 bem podia ter sido escrito por Lewis Carroll, senão vejamos, quantas vezes aconteceu sentirmo-nos cair num buraco escuro para seguir um coelho atrasado? Coelhos atrasados todo o santo ano! E a quantidade de vezes em que encolhemos e esticámos? em tantos sentidos que nem vou enumerar! E quantos dias houve em que acordámos de manhã e sabíamos quem éramos e ao final da tarde já tínhamos mudado tantas vezes que.... Quantas vezes vos ocorreu o pensamento somos todos loucos (...)
29 Dez, 2020

Sísifo

Parte I

Vi Sísifo a sofrer grandes tormentos, tentando levantar com as mãos uma pedra monstruosa. Esforçando-se para empurrar com as mãos e os pés, conseguia levá-la até ao cume do monte, mas quando ia a chegar ao ponto mais alto, o peso fazia-a regredir, e rolava para a planície a pedra sem vergonha. Ele esforçava-se de novo para a empurrar: o suor escorria dos seus membros; e pó da sua cabeça se elevava.   Odisseia 11. 593-600   Sísifo era um homem astuto. Filho de Éolo, o (...)
27 Dez, 2020

O tempo erodido

Neste final de ano dou por mim a pensar em Proust… em Joyce…, no tempo erodido e na inevitabilidade das escolhas. O tempo não é uma arriba! é uma escavadora de sulcos no córtex existencial. Uma fita magnética linear a revestir as paredes de memórias, em marca d’água, assinada por Khronos. Einstein sabia que o tempo não passava de uma ilusão a criar realidades na (in)consciência. Verbalmente, o tempo é ter ou haver. Mas não o há que sobeje, nem o tenho em excedências. (...)

Os despojos do dia

O dia perfeito para escrever sobre um dos meus autores preferidos. Hoje é o aniversário de Kazuo Ishiguro. Os despojos do dia, O gigante enterrado, Nunca me deixes, As pálidas colinas de Nagasáqui, Um artista do mundo flutuante, Quando éramos órfãos, são os títulos que li até ao momento. Noturnos e Os inconsolados esperam o momento oportuno, um momento em que possa abrir o livro com o tempo de (...)
20 Out, 2020

O Cisne Negro

Não tinha em mente reler este livro imenso, quando tenho tantos livros por ler. Mas foi irresistível o chamado do laranja intenso da sua capa, qual embalagem de vitamina C, tão conveniente nesta altura do ano. Um chamado ligeiramente contaminado pela possibilidade de passar uns bons momentos hilariantes, ao mesmo tempo que relembro as ideias propostas por este cérebro único e surpreendente, que é Nassim Nicholas Taleb. Porque parece que afinal há livros certos para certos momentos. (...)
Há muitas modalidades para visitar a Feira do Livro. Há quem vá para passear e até compra um ou outro livro casual, há quem vá à descoberta e se deixe seduzir incautamente, há quem vá à procura de raridades e só passa pelos alfarrabistas, há quem vá todos os dias e tem a força de vontade para só comprar os livros do dia, há quem vá só na Hora H, há quem vá para passar o dia e assiste a tudo e participa de tudo, e há tantas outras modalidades que nem vislumbro. Não sei (...)
Outrora é um lugar situado no centro do universo. As suas fronteiras cardeais são guardadas pelos quatro arcanjos, a norte Rafael, a sul Gabriel, a ocidente Miguel e a oriente Uriel. Outrora é divinamente protegida e tudo corre bem. É na floresta de Outrora que se encontra o coração do micélio, e este, sábio e intemporal, como Deus, fala a quem o escute, num sussurro que não tem tempo nem significado, apenas evidência e clareza. Como em todos os lugares pequenos há um (...)